Calendários internacionais estarão desatualizados? Pandemia trouxe novas dores de cabeça

Datas FIFA tornam calendários ainda mais asfixiados e abrem a porta a novas reflexões

Uruguai registou vários casos de Covid-19 nesta paragem para seleções
• Foto: Reuters
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As datas FIFA sempre foram uma grande dor de cabeça para os clubes, que temiam os riscos de uma lesão causada pela utilização internacional. Mas agora esse medo é ainda maior. Para além das seleções estarem a contribuir para um asfixiar de um calendário já por si só muito concentrado, por causa do adiamento provocado pela pandemia, estão também neste momento a levar a um aumentar de casos positivos de Covid-19 no seio dos clubes, que recebem jogadores que foram infetados ao serviço dos seus países.

Uruguai de Darwin com seis jogadores infetados

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O caso mais dramático das últimas semanas foi o da seleção do Uruguai. Da última concentração da equipa de Óscar Tabárez resultaram seis atletas infetados com o novo coronavírus. Matías Viña foi o primeiro elemento da seleção celeste a testar positivo, abandonando logo a concentração, mas já depois de ter participado no jogo com a Colômbia, de Carlos Queiroz. No dia seguinte ao encontro, a federação daquele país deu conta de que Luís Suárez, Rodrigo Muñoz e um funcionário estavam também infetados. Já esta quarta-feira, Diego Rossi, Alexis Rolín e Lucas Torreira, jogadores que estiveram igualmente ao serviço do Uruguai, testaram positivo.

Darwin Núñez, jogador do Benfica, fez parte dos convocados de Óscar Tabárez, mas até ao momento não é conhecido que tenha sido diagnosticado.

Calendário sobrecarregado após três meses consecutivos de paragens para as seleções

Este ano, a pandemia de Covid-19 condicionou bastante os calendários internacionais e obrigou a FIFA a agendar datas para os compromissos das seleções em três meses consecutivos. A Seleção Nacional, por exemplo, realizou dois jogos em Setembro, três em Outubro e agora outros três em Novembro. Isto num calendário que já estava muito preenchido.

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Em Portugal, após esta paragem para as seleções, FC Porto, Benfica e Sp. Braga enfrentam um ciclo de jogos completamente infernal durante o próximo mês. No caso de águias e dragões, até se defrontarem na Supertaça, a 23 de dezembro, vão jogar oito partidas num espaço de 33 dias, a contar do próximo sábado.

Vão existir jogos para o campeonato, Taça de Portugal, Liga Europa e Liga dos Campeões, e Taça da Liga. O Benfica começa este ciclo com a deslocação ao União de Paredes, para a Taça de Portugal, no norte do país, e depois vai à Escócia defrontar o Rangers para a Liga Europa. No dia 30 de novembro há nova viagem à Madeira, onde o Benfica enfrentará o Marítimo para o campeonato, e, três dias depois, receberá o Lech Poznan para a Liga Europa novamente.

Segue-se a receção ao Paços de Ferreira para a 1ª Liga e, no dia 10 de dezembro, disputa-se o último encontro da fase de grupos da Liga Europa, diante do Standard Liège, na Bélgica. Depois do encontro com os belgas, haverá ainda outro adversário na Taça da Liga e, por último, a deslocação a Barcelos para o campeonato, com o Gil Vicente, vai ser o último jogo antes da Supertaça.

Quanto ao FC Porto terá precisamente o mesmo número de jogos. No próximo sábado defronta o Fabril, no Barreiro, para a Taça de Portugal, seguindo-se a deslocação a Marselha para a Liga dos Campeões. Depois a comitiva portista viaja até São Miguel, nos Açores, para defrontar o Santa Clara em jogo do campeonato, antes de voltar a enfrentar o Manchester City, novamente para a Champions, no dia 1 de dezembro.

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Apenas quatro dias depois, o FC Porto recebe o Tondela no Dragão para a 1ª Liga e em seguida viaja para a Grécia para a derradeira jornada da fase de grupos da Liga dos Campeões. Segue-se então o tal confronto para a Taça da Liga, ainda sem adversário conhecido e finalmente o jogo com o Nacional, para o campeonato, até à Supertaça de 23 de Dezembro.

O caso do Brasil

A FIFA criou as "Datas FIFA" em 2002 para acabar com a eterna guerra entre os clubes que libertavam jogadores para as seleções nacionais, mas continuavam a ter de enfrentar os seus compromissos nas suas competições nacionais. A partir da adoção desta medida por parte da FIFA, essa polémica acabou, uma vez que nenhum jogador voltou a desfalcar o seu clube em jogos importantes para atuar pela sua seleção. Simplesmente deixaram de existir jogos de clubes naquelas datas. Foi assim praticamente no mundo inteiro, mas houve uma exceção: o Brasil nunca respeitou essa regra simples e clara. O jornalista Vítor Rodrigues, do Esporte Interativo, condenou recentemente o facto de o Brasil continuar a ignorar as datas impostas pela FIFA e a realizar jogos das suas competições nesses mesmos dias.

"O futebol brasileiro caminha para a segunda década a rasgar uma obrigação evidente: não ter jogos oficiais dos seus clubes durante as Datas FIFA. É um absurdo que clubes que pagam caríssimo para ter grandes jogadores não possam contar com eles em partidas importantes e decisivas. Aconteceu agora outra vez, em partidas dos quartos-de-final da Taça do Brasil e do Campeonato Brasileiro. De quem é a culpa de isso continuar a acontecer? Logicamente a resposta é fácil: da CBF. Ela rasga uma regra clara e fácil: usa as Datas FIFA para realizar jogos oficiais. Mas a CBF comete esse 'erro' há quase 20 anos", afirma o jornalista.

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Hipóteses para o futuro no pós 2024

Apesar da criação das datas FIFA terem acabado com grande parte da polémica entre os clubes, a verdade é que treinadores por todo o mundo continuam a queixar-se quando são privados dos seus jogadores durante o período dos jogos das seleções. Mais, ao contrário, também os selecionadores estão recorrentemente a lamentarem o facto de terem sempre tão pouco tempo para trabalharem com os atletas. Em Portugal, ainda há pouco tempo ouvimos Jorge Jesus queixar-se de "nem sequer poder passar uma mensagem positiva" aos seus jogadores após a derrota com o Sp. Braga, ou Fernando Santos lamentar-se após a vitória na Croácia que não poderia corrigir os erros de Cristiano Ronaldo e companhia no dia seguinte porque já ninguém lá estaria. Pelo menos até ao Euro’2024, os calendários internacionais vão manter-se inalteráveis. Mas o futuro pode trazer mudanças, como admite o próprio presidente da FIFA.

"Acho que devemos procurar maneiras de ter menos partidas, mas mais significativas. Encontrar uma fórmula perfeita será extremamente desafiador, mas acho que a comunidade do futebol deveria pelo menos discutir de forma aberta e franca para ver se podemos chegar a soluções novas e melhores. Parece haver um consenso de que há muitas partidas por temporada em muitos países", afirmou Gianni Infantino, em entrevista ao Globoesporte, questionando.

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"Como seriam as coisas se tivéssemos períodos diferentes ao longo da temporada? Um período para as seleções, outro para competições nacionais, outro para competições continentais e ainda outro para competições mundiais? Pode fazer sentido que o formato com grupos reduza consideravelmente o número de viagens, com benefício para jogadores e para o meio ambiente. Por outro lado, os adeptos adoram jogos de mata-mata, e muitas pessoas defendem que deveria haver mais jogos assim. Isso seria positivo? Podemos encontrar uma maneira para que isso aconteça? Na minha opinião, qualquer discussão sobre isso teria que ser baseada no respeito aos períodos de descanso e recuperação dos jogadores", concluiu o líder do organismo que tutela o futebol mundial.
As datas FIFA sempre foram uma grande dor de cabeça para os clubes, que temiam os riscos de uma lesão causada pela utilização internacional. Mas agora esse medo é ainda maior. Para além das seleçõ...

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Por Miguel Custódio
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